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Reunião dos Brics virou cena de filme de James Bond

De certa forma, é irônico que a cúpula dos Brics, no momento em que tem o maior número de integrantes, represente o fracasso definitivo de seu propósito original. O surgimento do grupo remete ao acrônimo constante no notório estudo do economista Jim O’Neill, que propunha a reforma da governança global e a necessidade de incluir Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, países emergentes e com características econômicas semelhantes. Mas, de plataforma de desenvolvimento a coisa foi enveredando por outro caminho, numa tentativa de antagonizar o G7, formado pelas democracias ocidentais.

Em sua última coluna no Instituto Monitor da Democracia, Márcio Coimbra descreveu o Brics como um “covescote autocrático”. Tendo o ditador russo Vladimir Putin como anfitrião e novos sócios como o Irã, a imagem do encontro parecia saída daqueles filmes do James Bond em que os vilões caricatos se reúnem para discutir seus planos de dominação do mundo. Até mesmo Nicolás Maduro apareceu, trajando o clássico modelito mafioso com sobretudo e chapéu preto.

Não surpreende a descrença de analistas econômicos e políticos com o futuro do grupo. Um dos principais críticos é o próprio O’Neill. “Terei Sr. Brics estampado em minha testa para sempre”, disse para a agência Reuters sem disfarçar a decepção e a melancolia. “A ideia de que o Brics possa ser um clube econômico global genuíno é, obviamente, um pouco equivalente às fadas”, desdenhou.

“Parece-me ser basicamente um encontro anual simbólico em que países emergentes importantes, especialmente os barulhentos, como a Rússia, mas também a China, possam se reunir e destacar como é bom fazer parte de algo que não envolva os Estados Unidos e que a governança global não é adequada o suficiente”, disse O’Neill sobre a reunião dos Brics. Uma reunião, diga-se, em que o barulho é desproporcional ao resultado efetivo. Excetuando-se, obviamente, a reciclagem que fazem da velhas taras anti-americanas e anti-ocidentais

As reclamações do Brics não são infundadas. As instituições geopolíticas criadas após a Segunda Guerra Mundial estão de fato em seu momento de maior desgaste. A inoperância do Conselho de Segurança da ONU é evidência de tal condição. Mas o que os membros do grupo propõe como alternativa?

A ideia de “multipolaridade” é bonita no discurso, mas o que se tem na prática é pressão chinesa para ampliação de seu próprio espaço de influencia. A tal diversidade decisória proposta é um falsete diversionista que não passa de uma agenda internacional deliberada em Pequim.

Foto: picture alliance / ASSOCIATED PRESS | Vyacheslav Prokofyev

Convescote Autocrático

Kazan foi o palco escolhido por Vladimir Putin para reafirmar sua presença internacional, mesmo que em meio a um grupo de países autocráticos. Ao hospedar a atual reunião de cúpula dos Brics às margens do rio Volga, Putin consegue driblar o mandado emitido pelo Tribunal Penal Internacional que ordena sua prisão e posa de líder ao lado de outros presidentes também polêmicos, como Xi Jinping da China e Masoud Pezeshkian do Irã.

O Brics substitui aquilo que era chamado no passado de países não alinhados, uma vez que o bloco não é uma instituição, mas apenas um grupo político que atualmente gira em torno da China, defendendo sua agenda e interesses, contrapondo-se ao G7.  Moscou e Pequim, os reais líderes, usam a oportunidade de palco informal para apoio ao chamado “Sul Global”, designação que na cartilha de seus membros substitui a antiga expressão “Terceiro Mundo” ou “países em desenvolvimento”.

O bloco recentemente passou por uma ampliação, recebendo Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Irã como membros plenos. Este será o 1º encontro com os chefes de governo dos novos participantes, que se integram aos fundadores, Brasil, Rússia, Índia, China e (depois) África do Sul, que se reúnem desde 2009.

Vladimir Putin usa o evento como forma de demonstrar alguma liderança internacional desde que sua imagem foi atingida com a invasão da Ucrânia. Atualmente ele está banido de reuniões nos Estados Unidos e em países europeus e busca mostrar liderança entre o chamado Sul Global, mas também na Ásia Central, onde estão localizadas as antigas repúblicas soviéticas e em regiões da África, onde divide seu imperialismo político com o domínio econômico chinês.  

Com o objetivo de diminuir o impacto das sanções internacionais contra o Kremlin, Putin aposta na redução das transações em dólares. Para isso pretende usar o Brics e seu banco, o NDB, atualmente sob comando formal do Brasil. O objetivo é forçar com que a moeda dos EUA, o dólar, deixe de ser referência no comércio e finanças globais e, assim, perca a relevância como reserva de valor. Tudo, claro, combinado com os chineses.

Liderado pela China, o palco de Putin foi montado também para mostrar a musculatura e potencial de influência das autocracias que comandam o grupo. Como forma de ampliar seu poder, porém sem perder controle decisório, o bloco procura implementar uma nova modalidade de membros associados. Participariam de reuniões, mas sem votar. Assim, a reunião decidiu receber líderes de 24 nações, como Bahrein, Belarus, Bolívia, Nicarágua, Síria, Cuba, Argélia, Venezuela, entre outros, ou seja, nenhuma que navegue de forma calma pelas águas de um regime democrático. Um movimento que deixa claro o caminho trilhado pelo Brics: um clube autocrático em ampliação.

Ao fim da celebração russa, a presidência rotativa do bloco será transferida para o Brasil, que sediará a 17ª reunião de cúpula. Seria uma oportunidade para nosso país falar de temas importantes que passam ao largo da agenda do bloco, ignorados solenemente pelos países que lideram as discussões. Ao optar pelo silêncio, democracias como o Brasil apenas chancelam a cruzada autoritária de seus membros. Na verdade, o Brics se tornou um convescote autocrático financiado por ditaduras que oprimem suas populações. Já passou da hora de repensarmos nossa presença neste clube.

Esquerda defende e glorifica Sinwar, líder do Hamas

Estamos cometendo um erro grave ao subestimar o potencial de radicalização que um grupo como o PCO pode trazer à sociedade. Sempre que surge a questão – seja exaltando terroristas, seja organizando passeatas com suásticas – a resposta é previsível: “Ah, mas é o PCO. Quem vai levar isso a sério?” O problema é que essa visão de que se trata de uma extrema esquerda caricata, quase folclórica, impede de enxergar o verdadeiro perigo.

Existe uma crença popular que se tornou quase um mantra: “Não vou bater palma para maluco dançar.” A ideia é que, se você ignora o comportamento absurdo, ele simplesmente desaparece. Mas o que poucos percebem é que, nesse caso, o “maluco” dança com ou sem palma. Se você não interrompe o espetáculo, mais “malucos” começam a dançar. E chegamos ao ponto em que a indiferença da sociedade pode se tornar fatal.

Pequenos grupos radicais têm o poder de radicalizar. E não estamos falando de teorias. Casos concretos de terrorismo no Brasil, como aqueles planejados por dois indivíduos radicalizados pelo Hezbollah, surgem exatamente de ambientes onde grupos minoritários ganham terreno. Eles não fazem parte de grandes partidos, não têm o mesmo alcance, mas operam nas sombras, radicalizando o suficiente para causar tragédias. Estamos subestimando o impacto desses movimentos.

A radicalização pode parecer distante, coisa de um grupo pequeno, mas isso não impede que eles causem grandes estragos. Recentemente, houve casos em que jovens brasileiros foram mentorados por um ano, por criminosos no exterior, para planejar ataques em escolas. E fizeram o ataque. Grupos pequenos, com discursos violentos, podem ser altamente eficazes em radicalizar.

O PCO, a extrema esquerda, não está fora desse jogo. Tanto a extrema esquerda quanto a extrema direita se alimentam de discursos violentos, sectários, e o PCO está evoluindo rapidamente nessa direção. Desde outubro do ano passado, o grupo passou de relativizar ataques terroristas para glorificar terroristas como mártires, exigindo mais mártires. Estão nas ruas com suásticas e, incrivelmente, nada aconteceu. O problema não é só o PCO. O que vemos é uma normalização desse discurso violento.

Há uma parte da militância que, até pouco tempo atrás, era composta por “Che Guevaras de apartamento.” Mas hoje, essas mesmas pessoas estão à beira de fazerem discursos neonazistas, se não o fizeram ainda. O que escrevem, o que dizem, como se comportam em relação aos judeus, nada disso parece mais pertencer a uma sociedade civilizada. Estamos vivendo algo que vai além dos limites do aceitável, mesmo dentro da precariedade de nosso sistema.

Por outro lado, temos o governo Lula. Ele se aproxima cada vez mais de regimes ditatoriais, normalizando o que deveria ser inaceitável. A situação chega ao ponto de o Talibã querer se juntar ao BRICS. E o que vemos? A primeira-dama, “empoderada,” sentada no Catar, conversando com a terceira mulher de um sheik de um país que não respeita os direitos das mulheres. O silêncio das feministas é ensurdecedor.

Estamos falando de uma mudança estrutural. O Brasil, que sempre foi neutro e um grande mediador em conflitos internacionais, agora toma partido de regimes que oprimem mulheres, minorias, e que glorificam a violência. O PCO é apenas a ponta de lança. Eles talvez digam o que outras alas da esquerda não podem dizer abertamente. É uma possibilidade. Nesse raciocínio, aos poucos, o discurso vai se tornando normal, até o ponto em que o radicalismo deixa de ser algo marginal e passa a ser aceito dentro da esquerda.

O problema é que, uma vez que essa porta estiver arrombada, colocar um trinco será impossível. Não estamos mais no momento de “abrir os olhos”, esse tempo já passou. E cada dia que ignoramos o PCO e a crescente radicalização de uma parte da militância, mais profundo será o buraco que cavamos para nossa própria sociedade.

Foto: Natalia KOLESNIKOVA AFP.

Imperialismo Autoritário

O imperialismo é um conjunto de ideias, medidas e mecanismos que, sob determinação de um país, procuram efetivar políticas de expansão, domínio territorial, econômico ou cultural sobre outras regiões geográficas. Apesar do conceito de imperialismo, derivado de uma prática assente na teoria econômica, ter somente surgido no início do século XX, sua prática é recorrente ao longo dos séculos por muitas nações, civilizações e mais recentemente por Estados-nação.

Existem alguns países que possuem o imperialismo como elemento norteador de suas ações, um verdadeiro traço de suas personalidades como nação. Este elemento está claramente presente no pivot da Ásia, a Rússia, que ao longo dos séculos foi palco de políticas expansionistas. É possível identificar este elemento no domínio soviético em países da Ásia Central e do Leste da Europa, tornando-se suas repúblicas. Em tempos mais recentes, este elemento está presente na tentativa de domínio econômico, político e cultural dos mesmos países, agora independentes, atingindo seu ápice com a invasão territorial da Ucrânia ordenada pelo Kremlin.

O imperialismo também sempre foi presente na Ásia, seja na Mongólia, o maior império de terras contíguas da história, mas passando também pelo Império Khmer, atualmente o Camboja, pela ascensão do poderio nipônico na expansão e domínio do Japão pelo continente e mais recentemente em escala local e global pela China, que passou a ser governada pelo Partido Comunista desde a Guerra Civil que terminou em 1949, levando o antigo líder, Chiang Kai-shek, a viver no exílio, em uma ilha conhecida como Taiwan.

Assim como a Rússia, que ainda sente o gosto amargo do fim do império soviético, quando possuía duas dezenas de repúblicas, hoje países independentes, na sua esfera de influência e domínio, a China também custa a aceitar a realidade de que ao longo de décadas Taiwan se tornou um país independente. Pequim se expandiu para o Tibete e outras regiões da península asiática, porém jamais conseguiu controlar Taiwan, um desejo antigo que mexe com as placas tectônicas da geopolítica internacional.

Isso se explica porque Taiwan se tornou um país independente de fato e de direito ao longo dos anos, adotando todos os passos necessários para firmar-se como economia relevante, parceiro comercial confiável, uma democracia plena e centro vibrante na área de inovação e tecnologia, com índices altíssimos de educação. O país que produz hoje cerca 66% da produção mundial de chips, com 56% destes semicondutores saindo da lavra da TSMC, possui em torno de si um chamado “escudo de silício” que o protege, uma vez que um abalo econômico causado por uma guerra na região seria algo devastador para a economia de todo o planeta.

O imperialismo tornou-se um risco no atual plano das relações internacionais, pois tem sido usado de forma sistemática por regimes antidemocráticos para consolidar e ampliar o poder de líderes autoritários. Os casos são vários e começam pelos aqui já citados, ou seja, pelo avanço da Rússia pela Ucrânia, das ameaças chinesas em direção a Taiwan, porém também nas ameaças da Venezuela à Guiana, do expansionismo iraniano no Oriente Médio, da instabilidade causada pela Coréia do Norte em direção ao Seoul. O gene do autoritarismo, uma prática que se tornou popular em tempos recentes, carrega consigo os riscos do imperialismo, colocando o mundo em situação cada vez mais instável e perigosa em tempos recentes.

Protesto contra o antissemitismo na Bélgica — Foto: AFP

Marxismo, identitarismo, decolonialismo e o novo antissemitismo

Por esses dias escrevi alguns parágrafos para a orelha do livro do professor Rodrigo Jungmann, que será publicado em breve. No seu ensaio, intitulado “Deturparam Marx?” Jungmann declara que o texto nasce de um “assombro com a popularidade do comunismo entre professores, estudantes, formadores de opinião brasileiros, a despeito de toda a inegável crueldade inerente a esse sistema”. 

Comento, então, que, de fato, esse cenário é preocupante, tanto mais que a justificação da violência revolucionária presente na teoria marxista transmutou-se, dando as caras hoje, por exemplo, como legitimação do terror islâmico num cenário em que palestinos são colocados no papel dos oprimidos da nova era, sendo os muçulmanos, por conseguinte, interpretados e apoiados como novos sujeitos revolucionários para os quais toda “resistência” é legítima.

Tenho refletido e escrito sobre isso desde o dia 7 de outubro de 2023, quando um ataque bestial, grotesco, horrendo, cruel e covarde perpetrado pelo grupo terrorista palestino Hamas contra israelenses/judeus foi festejado pela extrema esquerda como um ato de resistência. Parece-me não ser possível compreender tão odiosa atitude sem ter em mente essa chave de interpretação: os muçulmanos substituíram o proletário do papel de oprimidos. Para que se tenha uma dimensão do que isso significa convém considerar algumas nuances da teoria marxista. Para isso me valho do ensaio acima referido que prefaciei.

Depois de demonstrar, em livro anterior (“Marx e Engels: o que não te contaram”), a existência, na obra de Marx e Engels, de racismo, antissemitismo e homofobia, Jungmann expõe, em “Deturparam Marx”, trechos nos quais ambos defendem a violência extremada e o terror a serviço da causa revolucionária. Os males do comunismo, explica, não contradizem os ditames teóricos do marxismo, mas são sua consequência natural. Isso pode parecer lugar-comum para quem é anticomunista desde criancinha, mas é importante atentar para explicação da justificação da violência extremada e do terror.

Com seu materialismo histórico dialético, Marx julga ter solucionado o enigma da história. Na sua interpretação dogmática, a história é movida incessantemente por uma luta de classes entre opressores e oprimidos. Há, em sua visão de mundo, uma teleologia imanente, incompatível, por óbvio, com a escatologia cristã, perpassada por uma teleologia transcendente. Dito de outra forma, a teoria de Marx é uma religião política que prega a inevitabilidade do paraíso na terra, sob a forma da consumação do comunismo, após, claro, a superação do estágio nada agradável da ditadura do proletariado.

O marxismo, explica Jungmann, “não se apresenta como um conjunto de hipóteses, mas antes como ciência consumada das condições propícias ao advento desse futuro radioso.” Essa pretensão à infalibilidade tem como corolário a intolerância política, afinal, como você acha que se comporta alguém que se julga detentor de uma verdade redentora, acredita que a moral é apenas uma superestrutura ideológica e vê na religião apenas o ópio do povo?

Identitarismo e decolonialismo

Essa mentalidade dogmática, intolerante, revolucionária, fanática ficou um tanto adormecida depois do fim da União Soviética, da queda do muro de Berlim e da constatação factual de que o socialismo só trouxe desgraça à humanidade. À semelhança, porém, de um germe nefasto que permanece latente esperando ocasião de se manifestar, o vírus totalitário encontrou na política identitária da nova esquerda o ambiente adequado para se proliferar.

É para isso que aponta um artigo do escritor português, João Pereira Coutinho, publicado na Folha de S.Paulo, em 7 de outubro de 2024. O artigo trata da “alegria macabra” que sucedeu o pogrom do Hamas contra os judeus um ano atrás. Ele recorda, então, outro atentado terrorista islâmico, o de 11 de setembro de 2001:

Eu ainda me lembro dos dias seguintes aos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001. Das expressões de júbilo que, aqui e ali, aplaudiam Osama bin Laden. Mas eram vozes raras. Não havia multidões nas ruas de Londres, Paris ou Berlim com cartazes do gênero ´I love Al Qaeda´ ou ´Do Atlântico ao Pacífico, a América será livre´.

O que mudou em duas décadas? O que fez com que o vírus do antissemitismo, aparentemente cristalizado, se disseminasse a ponto de termos visto universidades no mundo todo ocupadas por jovens ocidentais dementados, portando orgulhosamente seus keffiyehs, berrando cânticos que pedem a aniquilação de Israel e hostilizando estudantes judeus?

Ecoando a análise do jornalista britânico Brendan O’Neill, Coutinho escreve: “Quando o 11 de Setembro aconteceu, os festejos foram modestos porque não havia ainda um roteiro que os enquadrasse na luta anti-imperialista. Faltava, digamos assim, repertório. Para O’Neill, o roteiro surgiu com a radicalização das ´políticas de identidade´ que se espalharam nos 20 anos seguintes e que começaram a atribuir valor moral a certos grupos de acordo com a cor da pele, o pretenso privilégio e o lugar que ocupam na hierarquia racial”.

Essa radicalização das políticas de identidade, por sua vez, deu-se concomitantemente ao desenvolvimento e grande difusão de outra ideologia radical: o decolonialismo, que nada mais faz do que atualizar a velha dicotomia marxista que lê o mundo pela estreita fórmula de opressores e oprimidos.

No ciclo vicioso da eterna doutrinação, os jovens da atual geração são o produto de uma educação que se esmerou em demonizar o Ocidente, reduzindo a história da civilização ocidental a processos de violência colonizadora por meio da escravização dos povos africanos, do genocídio dos povos indígena ou da subjugação de povos árabes, sempre em favor do privilégio europeu e posteriormente dos interesses norte-americanos.

As revisões do marxismo que firmaram as bases da nova esquerda aposentaram o proletariado como sujeito revolucionário. Foucault, por exemplo, ensinou aos novos esquerdistas que há uma microfísica do poder, que as relações de poder estão por toda parte, invisíveis. No nosso mundo pós-moderno, pós-estruturalista, pós-colonial e pós-verdade não há, pois, sujeito revolucionário, mas discursos revolucionários que criam o tempo todo novos sujeitos.

O novo sujeito revolucionário pode ser qualquer minoria, desde que se ache oprimida por poderes invisíveis, se ache vítima de uma dívida história pela qual exige ser ressarcida ou se sinta ofendida pela sociedade “heteronormativa”, “patriarcal” que não presta culto (ainda) às suas idiossincrasias sexuais.

De modo algum são os pobres de espírito enaltecidos pelo Cristo, nem os desvalidos que o poder dos homens curvou mas que a fé na eternidade enobreceu; são, ao contrário, os que deserdaram da fé cristã para crer somente na violência redentora da política.

Desumanização dos judeus e islamoesquerdismo

O ressentimento está disperso e a falta de uma estrutura de poder visível e palpável contra a qual se insurgir torna indispensável que se eleja um inimigo comum, capaz de homogenizar a vozes estentóricas e revoltadas que bradam contra tudo e contra todos.

O Ocidente, vimos, já havia sido condenado. Mas o que é o Ocidente? Uma tradição moral, jurídica e religiosa; um epopeia espiritual ainda em curso cujas raízes se assentam na fé no Deus de Israel, na razão filosófica dos gregos e no pensamento jurídico de Roma, como belamente explicou o papa Bento XVI em discurso já citado por mim em artigo anterior.

O marxismo, vimos, é uma cosmovisão teleológica materialista incompatível com a teleologia judaico-cristã. Que povo da terra é um testemunho vivo da ação de Deus no mundo senão o povo hebreu, o povo de Israel, os judeus? A resistência, a persistência, a sobrevivência e a existência dos Judeus em Israel é quase a materialidade de uma finalidade que não é desse mundo mas que se mostra no mundo.

Toda política de viés totalitário precisa eleger um inimigo. Por que não os judeus mais uma vez? Basta adaptar um pouco o discurso. Não mais um ódio de raça, por que, afinal, somos antirracistas. Que tal um ódio ao povo disfarçado de ódio ao lar desse povo? Mas como transformar as vítimas do holocausto em carrascos?! Dá-se um jeito. Nada que décadas de revisionismo histórico não resolva.

Por meio das narrativas mais disparatadas, eivadas de contradições, preconceitos, ignorância soberba e má-fé, a intelligentsia esquerdista conseguiu, em algumas décadas, transformar os judeus em brancos privilegiados colonizadores opressores genocidas nazistas. É o que denuncia Frank Furedi no artigo “A desumanização woke dos judeus”:

Do ponto de vista da política de identidade, há pouco espaço para empatia em relação à situação do judeu supostamente hiperbranco. Como supostos possuidores de tanto poder e privilégio, o povo judeu não tem direito ao status de vítima, mesmo quando é brutalizado à vista do mundo. Os pecados cometidos pelo Hamas em 7 de outubro são muito fáceis de lavar quando suas vítimas não são mais consideradas totalmente humanas.

A desumanização dos judeus possibilitada pela retórica identitária casou bem com o antissemitismo islâmico. A autoaversão ocidental à sua própria história após décadas de lavagem cerebral marxista, neomarxista e congêneres possibilitou essa estranha aliança chamada islamoesquerdismo.

Essa aliança, porém, tem os dias contados. No instante em que as forças ocidentais tombarem e os véus e as burkas que cobrem as pobres mulheres no Islã precisarem cobrir as estranhas mulheres trans ocidentais, esta já não será apenas a veste obrigatória, mas a própria mortalha dos incautos que padecerão sob a espada de Allah, após renegarem o Deus justo de Israel e o Cristo compassivo, que sustenta a moral e a liberdade que ainda reina no Ocidente.

O governo Lula está boicotando negócios de judeus? É urgente uma explicação clara

As declarações do ministro José Múcio Monteiro sobre o desrespeito aos resultados de licitações por questões ideológicas são, sem exagero, das mais graves que já ouvi em toda a minha trajetória na cobertura política. O que ele descreveu em seu desabafo contra interferência ideológica em licitações não é apenas uma irregularidade, é uma afronta direta aos princípios básicos de qualquer democracia.

Primeiro, temos a burla da licitação em si. Depois, a justificativa. Em um dos casos, da venda de equipamentos que não necessitamos e são de manutenção cara, há o medo de que os equipamentos vendidos à Alemanha possam acabar nas mãos da Ucrânia e sejam usados contra a Rússia. Putin virou parceiro estratégico do Brasil sob o governo do PT. O comércio com a Rússia foi elevado a um novo patamar após a invasão da Ucrânia, mostrando uma aliança que vai muito além de interesses econômicos, é ideológica.

Mas o problema é ainda mais profundo e toca em uma questão explosiva: o antissemitismo. Quando o ministro fala sobre Israel ganhando a licitação e o governo barrando por “questões ideológicas,” o que ele realmente está insinuando? Que os judeus não podem vencer porque isso poderia desagradar seus aliados ou chocar sua narrativa pró-Hamas? É uma lógica perigosa que ecoa um histórico sombrio.

Lula já fez várias declarações que beiram o antissemitismo desde o início do conflito no Oriente Médio. Se ele pessoalmente acredita ou não nessas ideias, pouco importa. O que importa é que, como líder de uma nação, suas palavras e ações têm consequências reais para a comunidade judaica no Brasil. Historicamente, sabemos que discursos assim são os primeiros passos para isolar e perseguir uma minoria. Quem acha que não tem nada com isso lembre-se: começa com os judeus, termina em você.

O ministro José Múcio foi claro ao dizer que o governo estava disposto a boicotar os negócios de judeus, seguindo uma lógica ideológica perversa. A história é testemunha de que atitudes como essas foram a porta de entrada para atrocidades inimagináveis. A perseguição econômica aos judeus foi o início do caminho para o Holocausto na Alemanha nazista. Não estou dizendo que Lula é nazista nem copia o nazismo. Estou dizendo que, quando um governo opta por práticas discriminatórias, ele brinca com o fogo mais perigoso.

O que é mais assustador do que as declarações em si é o silêncio cúmplice de parte da mídia, dos parlamentares e de quem deveria levantar a voz contra essa insanidade. A mesma esquerda que se diz defensora dos direitos humanos parece fazer vista grossa para o antissemitismo quando ele se encaixa nas suas agendas políticas. Como justificar esse apoio a regimes que reprimem mulheres e minorias, enquanto aqui fingem ser os paladinos da justiça e igualdade?

Não é de hoje que a esquerda identitária flerta com ideias antissemitas. Eles jogam judeus na caixinha dos “opressores” porque são brancos, ricos e colonialistas. Não importa que não sejam, a pauta identitária é divorciada da realidade dos fatos. Em nome dessa narrativa, qualquer ataque aos judeus parece ser justificado, o que é uma aberração moral e política.

Esse antissemitismo que permeia a base ideológica de alguns grupos não deveria jamais ter sido tolerado. Agora, porém, ele parece estar enraizado no coração do governo, e isso é perigosíssimo. O Congresso Nacional precisa acordar, agir com urgência, antes que o silêncio se torne cúmplice desse absurdo. Estamos diante de um desafio moral que não pode ser ignorado.

Resta saber: quem terá coragem de tomar uma atitude?

Um teste sobre democracia para os membros do STF

O poder judiciário deve dizer o que é legal ou ilegal de acordo com a sua interpretação das leis escritas.

Em democracias:

√  Tribunais de justiça não são instâncias válidas para fazer julgamentos éticos: não podem dizer o que é bom ou mau.

√  Tribunais de justiça não são instâncias válidas para fazer julgamentos “históricos”: não podem dizer o que é civilizatório ou não civilizatório.

√  Tribunais de justiça não são instâncias válidas para fazer julgamentos epistemológicos: não podem dizer o que é verdadeiro ou falso; nem o que é científico ou não científico.

√  Tribunais de justiça não são instâncias válidas para fazer julgamentos políticos: não podem dizer o que é politicamente correto ou incorreto.

Cortes supremas, em especial, devem se ater ao que é constitucional ou não. Se forem se meter a dizer, por exemplo, o que é democrático ou antidemocrático assumirão funções políticas.

Porque juízos dessa natureza dependerão das particulares concepções de democracia de seus membros, das suas orientações ou preferências políticas. E dependerão do grau de “alfabetização democrática” de seus membros, que muitas vezes é deficiente. Sim, frequentemente, notável saber jurídico não significa notável “saber democrático” (entre aspas porque a democracia não é propriamente um saber e sim um modo de se comportar politicamente).

Mesmo assim, é duvidoso se a maioria dos membros do nosso atual STF conseguiria ser aprovada com louvor num teste simples de dez perguntas fundamentais sobre democracia. Por exemplo:

1) Democracia é a mesma coisa que Estado de direito? Por que?

2) Por que, para a democracia, o sentido da política não pode ser a ordem e sim a liberdade?

3) A democracia depende mais da capacidade do Estado de impor suas leis à sociedade ou da possibilidade da sociedade de controlar o Estado?

4) A democracia conseguiria subsistir só com base em leis escritas? Qual o papel das leis não escritas (ἄγραφοι νόμοι) na consolidação da democracia?

5) Por que a reforma distrital, proposta por Clístenes em 508 a.C., substituindo o genos (γένος) pelo demos (δήμος), é considerada o marco fundador da primeira democracia?

6) Por que a reforma do Areópago, proposta por Efialtes em 461 a.C., retirando daquele tribunal supremo o poder político, foi fundamental para o desenvolvimento da primeira democracia?

7) Por que o Brasil não está incluído na lista das 32 democracias liberais do V-Dem 2024 (Austrália, Bélgica, Costa Rica, República Checa, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Alemanha, Islândia, Irlanda, Japão, Letônia, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, Seicheles, Espanha, Suécia, Suíça, Taiwan, EUA, Barbados, Butão, Canadá, Chile, França, Itália, Noruega, Coréia do Sul, Suriname, Reino Unido, Uruguai)?

8) Por que o Brasil não está incluído na lista das 24 democracias plenas (full democracies) da The Economist Intelligence Unit 2023 (Noruega, Nova Zelândia, Islândia, Suécia, Finlândia, Dinamarca, Irlanda, Suíça, Holanda, Taiwan, Luxemburgo, Alemanha, Canadá, Austrália, Uruguai, Japão, Costa Rica, Áustria, Reino Unido, Grécia, Maurício, Coreia do Sul, França, Espanha)?

9) Você conhece as principais obras da “tradição” democrática moderna; por exemplo, de Althusius, Spinoza, Locke, Montesquieu, Rousseau, Jefferson e os Federalistas, Paine, von Humbolt, Constant, Tocqueville, Mill, Dewey, Popper, Arendt, Bobbio, Lefort, Castoriadis, Maturana, Rawls, Berlin, Havel, Dahrendorf, Sen e Dahl – para ficar até o final do século 20? Quantos desses autores você já estudou?

10) Você conhece as obras (livros ou artigos) de teóricos contemporâneos da democracia; por exemplo, de Carothers, Coppedge, Diamond, Foa, Fukuyama, Galston, Horowitz, Huntington, Inglehart, Kyle, Levitsky, Lindberg, Linz, Lipset, Lührmann, Mounk, O’Donnell, Plattner, Przeworski, Putnam, Runciman, Snyder, Tannenberg, Teorell, Welzel, Ziblatt? Quantos textos desses autores você já leu?

Talvez Luís Roberto Barroso, presidente do STF, queira contraditar este artigo. Poderia começar, ele mesmo, se submetendo ao teste acima. E depois nos explicando o seguinte: se uma força política não tem como estratégia dar golpes de Estado, isso significa que ela é democrática?

Desmonte da Esquerda

As eleições municipais deixaram impressões muito claras sobre o rumo do eleitorado brasileiro. Talvez a mais importante tenha sido a desidratação dos partidos de esquerda, mostrando de forma clara que estas agremiações não foram capazes de realizar uma transição modernizadora de forma e conteúdo, tornando seu discurso algo que transita entre o ultrapassado e o obsoleto, incapazes de dialogar com o eleitor.

Em 1997, Tony Blair levou o Partido Trabalhista britânico ao poder depois de 18 anos. Sua leitura partia de uma refundação da esquerda inglesa, rompendo com as tradições sindicais ultrapassadas e um discurso que não se encaixava mais na realidade política e econômica do país. Seu movimento, batizado de “Novo Trabalhismo”, carregava a base teórica da “terceira-via”, desenhada por Anthony Giddens. A estratégia foi amplamente vencedora e o partido permaneceu no comando de Downing Street por 13 anos.

A esquerda brasileira ainda sente os efeitos da falta de uma leitura sobre os efeitos das manifestações de 2013 e suas consequências, que passam pelo choque promovido pela Lava Jato no coração do sistema, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro para o Planalto. Durante esta última década, o desgaste foi lento e gradual, sentido nas urnas e na clara falta de aderência de seu discurso diante da nova realidade do país. A eleição de Lula em 2022, mais do que uma vitória do petismo, foi uma derrota pessoal de Bolsonaro e isso não foi compreendido pela esquerda.

A ausência de uma troca geracional é um dos principais aspectos que impedem as forças de esquerda de se modernizar e voltar ao debate nacional como protagonistas. Sob Lula não floresceram novas lideranças, nomes de envergadura nacional com potencial de conduzir um processo de transição. Ao se manter como único nome, Lula deixou o grupo refém de sua figura política, além de impedir a modernização do discurso e das práticas necessárias para a manutenção da esquerda como um player relevante no debate nacional. 

O resultado está expresso nas urnas. O partido que dois anos atrás venceu as eleições presidenciais amargou apenas um 9º lugar com 253 prefeitos eleitos em 2024. É grande a chance do partido sair deste pleito sem eleger prefeito em nenhuma capital do país. Por mais que, para o petismo, esta eleição tenha sido levemente melhor do que 2020 em números absolutos, há uma forte curva descendente na esquerda. O PDT, por exemplo, enfrenta a maior queda entre os dez maiores partidos, caindo de 310 para 148 prefeitos. A participação das siglas de esquerda nos municípios caiu 13%.

Enquanto isso, os partidos de centro foram os maiores vencedores. Juntos, PSD, MDB, PP e União Brasil elegeram mais de 3.000 prefeitos no primeiro turno. Isso corresponde a 54% das cidades do país. Ao mesmo tempo, aqueles situados mais à direita, como PL e Republicanos foram os que mais cresceram. O PL ampliou em 49% o número de prefeitos, chegando a 523 e o Republicanos dobrou de tamanho, elegendo 441.

Se a esquerda não se reencontrar, recalibrar seu discurso, renovar suas lideranças e suas práticas, continuará a vender um conteúdo obsoleto para o país, algo já identificado pelo eleitor. Um caminho perigoso que tem potencial para tomar o comando do governo federal das mãos de Lula já nas próximas eleições. O aviso está dado. O desmonte da esquerda nunca foi tão claro. Se dobrarem a aposta, o tombo pode ser ainda maior.

Putin amplia as hipóteses de guerra nuclear

“Quão séria é a ameaça da nova doutrina nuclear russa?” Com esse título, Alexander Gabuev,  analista do Fundo Carnegie para a Paz (Carnegie Endowment for Peace), sediado em Washington, D. C., publicou recente artigo em que busca alertar o mundo para as possíveis/prováveis consequências da decisão da autocracia putinista na Rússia de baixar o chamado limiar de nuclearização, ou seja, o patamar a partir do qual os comandantes militares daquele país estarão autorizados a utilizar armas nucleares contra seus inimigos.

Até agora, a doutrina oficialmente adotada pelo Conselho de Segurança russo em 2020, antes,  portanto, da desastrosa aventura ucraniana do presidente Vladimir Putin, previa essa utilização em resposta a um ataque convencional que viesse a colocar em perigo a própria existência do Estado.

A nova versão da doutrina, que Putin deverá sancionar brevemente em forma de decreto, contempla três hipóteses: agressão perpetrada por um Estado inimigo não nuclear, porém apoiado por aliados nucleares; obtenção de informações sobre um ataque maciço de armas aéreas e especiais, combinado com a violação das fronteiras russas; e ataque de armas convencionais às repúblicas da Rússia e de Belarus que implique uma ameaça crítica à soberania de ambas.

Essa significativa  alteração doutrinária é uma resposta direta  às gestões do presidente ucraniano Volodymir Zelensky junto ao governo Joe Biden para que os Estados Unidos transfiram a Kyiv mísseis capazes de penetrar profundamente o território inimigo.

Os comandantes da Otan tem ciência da gravidade desse cenário: muito embora seja quase certo que os ataques ucranianos a Sevastopol com mísseis britânicos “Storm Shadow”, há um ano, só poderiam ter sido desferidos com o sinal verde da Aliança Atlântica, as altas patentes militares da Alemanha relutam em ceder à Ucrânia mísseis “Taurus” de longo alcance.

Moscou, de sua parte, indica que sua inferioridade em equipamento militar e as perdas humanas gigantescas causadas por uma invasão inicialmente prevista, há dois anos e meio, como um ‘passeio’ de tão fácil e rápida agora obrigam a Rússia a apelar para ameaça nuclear.

O governo americano sabe que precisa atender às suas duas maiores prioridades de defesa — em primeiro lugar, a segurança do próprio território dos Estados Unidos; em segundo lugar, a dos seus aliados da Otan — antes de satisfazer os interesses ucranianos. Daí, o cuidado com que Washington conduz discretíssimas gestões com o Kremlin, abaixo do radar da imprensa, de modo a evitar uma escalada até que o armagedom nuclear se torne inevitável, um desfecho que felizmente não se materializou em quase meio século de Guerra Fria.

Em face de tudo isso, Gabuev, do Carnegie, prevê, como desenvolvimentos imediatamente mais prováveis, a intensificação dos ataques por mísseis e drones ucranianos — já que Kyiv expande rapidamente sua capacidade de produzir esses equipamentos  aéreos — e, do lado russo, a multiplicação de represálias, como sabotagem e assassinatos ‘seletivos’ contra países da Otan. A hipótese da transferência de armas sofisticadas da Rússia para inimigos do Ocidente, como a milícia dos Houthis, aliada iemenita dos aiatolás iranianos, também não está descartada (um jeito de obrigar os Estados Unidos e seus aliados a dispersar seu foco e seus recursos militares), mas também implicaria um desafio adicional para Putin: incorrer na má vontade de uma peça vital no tabuleiro diplomático de Moscou — a Arábia Saudita, potência sunita que compete com o Irã pela supremacia  no Oriente Médio.